Celtics x Pistons – Parte 3 (Final)

Hoje, o Boston Celtics irá a Detroit, visitar os Pistons, em um jogo decisivo para ambas as franquias. Para o maior campeão da NBA, representa a chance de manter vivas as esperanças de retornar aos Playoffs, depois de apenas 1 temporada ausente. Já para a franquia do Michigan, representa mais do que uma chance, é matar ou morrer, visto que uma eventual derrota eliminará o time, matematicamente, de disputar a pós-temporada de 2014/2015, aumentando o jejum de participação nos Playoffs para 6 anos.

Então, esse jogo representará muito o que já vimos nas partes 1 e 2 dessa trilogia, uma vez que as franquias encontrarão, mais uma vez, uma a outra, no caminho necessário para alcançar seus objetivos. Entretanto, na década de 90, os jogos entre Celtics e Pistons não tiveram o mesmo apelo como os da década de 1980 ou até mesmo como o de logo mais.

Na última década do século XX, Boston e Detroit, ainda de ressaca pela aposentadoria de seus ídolos, não conseguiram formar times competitivos a ponto de colocar em xeque o reinado de Michael Jordan no Leste. Na verdade, suas equipes, em grande parte dos anos 90, deixaram tanto a desejar, que foi comum vermos ambas as franquias ocuparem papéis coadjuvantes na NBA. O Pistons tentou mudar isso já em 1994, ao escolher o ala Grant Hill, com a 3ª escolha-geral do recrutamento daquele ano. O Celtics, por sua vez, também apostou na reconstrução via Draft, ao recrutar Antoine Walker, Chauncey Billups, Ron Mercer e Paul Pierce, em um espaço de 3 anos (1996-1998), sempre com escolhas de loteria.

O Pistons conseguiu um relativo sucesso, já que frequentou os Playoffs em todos os anos, de 1996 a 2000, excetuando a temporada 1997/1998. Contudo, como dito, não passou de um mero coadjuvante, já que foi eliminado no First Round em todas as oportunidades (com direito a varrida em duas dessas temporadas). Cabe dizer que, diferentemente do Celtics, que encontrava-se carente de ídolos, o Pistons contou, até 1999, com o craque Joe Dumars, último membro restante dos áureos tempos de Bad Boys. O camisa 4 de Detroit exerceu papel de grande líder nos últimos anos de sua carreira como jogador, conseguindo, pelo menos, fazer seu Pistons chegar às pós-temporadas.

E foi justamente Joe Dumars quem começou a escrever novas páginas de glória na história da franquia de Detroit. Dessa vez, no entanto, o ex-jogador realizou tal feito como GM dos Pistons, cargo que passou a exercer a partir da temporada 2000/2001. Todavia, o começo, do agora dirigente Dumars, não foi nada fácil, já que em sua primeira offseason, teve de lidar com a saída do All-Star da franquia, o ala Grant Hill. Contudo, o executivo soube tornar a saída menos danosa, ao realizar um sign-and-trade, envolvendo o jogador em uma troca com o Orlando Magic. O Pistons, como contraprestação, recebeu Chucky Atkins e Ben Wallace. O último fez história em Detroit, vestindo a camisa dos Pistons por 6 temporadas e, em 4 delas, sendo eleito o melhor defensor da temporada em toda a NBA (um recorde na história da liga, só igualado por Dikembe Mutombo).

Na temporada seguinte (2001/2002), Joe Dumars deu o segundo passo no processo de reconstrução da franquia, ao contratar um treinador de sua confiança – o escolhido foi Rick Carlisle (atual treinador do Dallas Mavericks), ex-rival de Dumars, já que Carlisle era reserva no Celtics de Larry Bird. Em sua primeira temporada, Carlisle realizou um bom trabalho, levando a franquia do Michigan a vencer 50 jogos, fato que não ocorria desde 1997. Não obstante, fez o Pistons passar da primeira rodada dos Playoffs, quebrando outro incômodo jejum, já que isso não acontecia há 11 anos. Nas semi-finais de conferência daquele ano, o Detroit Pistons, 2º colocado geral do Leste, durante a regular season, encontraria um velho conhecido: o Boston Celtics.

O Celtics, que também havia enfrentado turbulências nos últimos anos (com a chegada e saída de Rick Pitino, que exerceu, concomitantemente, os cargos de treinador e presidente da franquia), chegava aos Playoffs depois de 7 anos, com as esperanças depositadas em suas jovens estrelas – Antoine Walker e Paul Pierce -, e sendo treinado por Jim O’Brien. O maior campeão da NBA também havia realizado uma boa temporada regular, visto que foi o 3º melhor do Leste, conquistando 49 vitórias naquele ano. Para aumentar, ainda mais, as expectativas, o jovem Pierce e cia. foram capazes de eliminar o poderoso Philadelphia 76ers, de Allen Iverson, na primeira rodada daqueles Playoffs.

Nessa série, agora protagonizada por Paul Pierce, Antoine Walker e Ben Wallace, o Celtics pôs fim à sequência de resultados ruins contra o Pistons em pós-temporadas (já que havia perdido as 3 últimas séries em Playoffs contra os Bad Boys), ao eliminar a favorita franquia do Michigan em 5 jogos. O fato mais curioso e histórico, dessa série, reside no jogo 3. Contudo, lamentavelmente, é algo vexaminoso, já que o Game 3, ocorrido no TD Garden, em 10/05/2002, representa o jogo de Playoffs com a menor pontuação combinada da história, até a corrente data. Juntos, Celtics e Pistons conseguiram apenas 130 pontos, com o maior campeão da NBA vencendo por 66×64. Eis o boxscore daquela partida tragicômica:

boxscore - game 3

Apesar da atuação sofrível no Game 3, justiça precisa ser feita: o jovem Paul Pierce, então com 24 anos, foi o líder da equipe de Boston nas 5 partidas disputadas, ao terminar aquela série com médias, por jogo, de 20.2 pontos, 8.6 rebotes, 4.4 assistências e 1.6 tocos. A seguir, a ótima atuação de The Truth no jogo 2, na vitória celta por 85×77, em pleno The Palace of Auburn Hills:

Assim como ocorreu na queda para o Celtics, nas Finais do Leste de 1987, o Detroit Pistons soube tirar lições do revés em 2002 e voltou mais forte. Bem mais forte. Na offseason da temporada 2002/2003, mais três jogadores, de vital relevância, desembarcaram em Detroit: Chauncey Billups, Richard ‘Rip’ Hamilton e Tayshaun Price, cada um de uma maneira. O primeiro era agente livre irrestrito e fechou com a franquia; o segundo chegou a Detroit através de uma troca com sua ex-equipe, o Washington Wizards, em uma negociação que envolveu 6 jogadores; por fim, Prince foi selecionado pelo Pistons no 2003 NBA Draft, com a 23ª escolha geral.

Com esse elenco, o Pistons deu início, naquela temporada, a um incrível feito: de 2002/2003 a 2007/2008, a equipe de Detroit alcançou, por 6 temporadas, a Eastern Conference Finals. Esse fato representa a segunda maior sequência de aparições consecutivas em finais de conferência, na história da NBA, ficando atrás apenas da sequência conseguida pelo Los Angeles Lakers, de 8 aparições consecutivas (1981/1982 – 1988/1989).

Após cair nas semi-finais do Leste, em 2002, e nas finais de conferência, em 2003, era chegada a hora de dar mais um passo rumo ao 3º título da história da franquia. Para realizar esse avanço, Joe Dumars concluiu que Rick Carlisle, apesar de bons resultados, não era capaz, e contratou o lendário Larry Brown. Mais um passo havia sido dado, mas faltava a última peça. E essa peça chegou em Fevereiro de 2004. Seu nome: Rasheed Wallace. O jogador, que ostenta (orgulhosamente) o recorde de mais faltas técnicas cometidas, passaria a vestir a camisa dos Bad Boys. Logo em sua primeira temporada, o quinteto inesquecível (Chauncey Billups, Richard Hamilton, Tayshaun Prince, Rasheed Wallace e Ben Wallace) fez história, ao presentear a cidade de Detroit com seu terceiro troféu Larry O’Brien, derrotando o favoritíssimo Los Angeles Lakers (de Payton, Bryant, Malone e O’neal), na 2004 NBA Finals, por 4×2.

O Detroit Pistons voltaria a disputar a NBA Finals em 2005 (sua última aparição na The Finals), mas, dessa vez, a equipe caiu no Game 7 para o San Antonio Spurs, em uma das finais mais equilibradas que a NBA já viu. No entanto, um outro fato também marcou aquela temporada da equipe de Detroit. Fazendo jus ao passado Bad Boys, o The Palace of Auburn Hills foi a casa da pior briga que a NBA já vivenciou. A seguir, cenas fortes da briga envolvendo jogadores e torcedores (!!!!) na partida entre Pistons e Pacers, ocorrida em 19/11/2004:

Enquanto o Pistons vivia um mundo de confusões e finais, o Boston Celtics, infelizmente, retrocedeu o sucesso de 2002, e afundou-se em instabilidade e maus anos. Em 2003, a maior franquia da NBA foi vendida por Paul Gaston ao Boston Basketball Partners L.L.C., grupo econômico liderado por H. Irving Grousbeck, Wycliffe Grousbeck e Steve Pagliuca (que são donos da franquia até hoje). As mudanças não pararam por aí: em 2004, foi a vez de Danny Ainge voltar a Boston, dessa vez como General Manager. Em sua primeira temporada no cargo, Ainge arregaçou as mangas e enviou o ídolo Antoine Walker para o Dallas Mavericks, e decidiu reconstruir o elenco a partir de Paul Pierce. No ano seguinte, mais mudanças, dessa vez no comando técnico: Jim O’Brien despedia-se do cargo e deixava aberta a vaga que viria a ser ocupada por Doc Rivers. Assim, em 3 anos, o Celtics passou por mudanças em todas suas instâncias: dono, dirigente, treinador e ídolo. O preço a ser pago, por tanta instabilidade, seria sofrer anos com campanhas decepcionantes.

Tanto sofrimento (que chegou a incluir uma campanha de 24-58, em 06/07), encerrou-se na offseason para a temporada 2007/2008, quando Danny Ainge conseguiu dar a Boston o seu segundo Big 3, dessa vez formado por Paul Pierce, Kevin Garnett e Ray Allen. O novo Big 3, em sua primeira temporada, já fez história, ao realizar a maior reviravolta de uma equipe na história da NBA: o Celtics, que havia vencido apenas 24 jogos na temporada anterior, conquistou 66 vitórias em 07/08, o que significou uma inigualável melhora de 42 vitórias em apenas 12 meses. Com a melhor campanha da NBA, o Celtics chegou como favorito nos Playoffs daquela temporada e, apesar de sustos nas primeiras fases (disputou 7 jogos contra Hawks e Cavaliers), chegou a mais uma final de conferência. O adversário? Mais uma vez, o Detroit Pistons.

A equipe do Michigan, apesar das saídas de Ben Wallace (que levou seus talentos para o rival Chicago Bulls, em 2006) e do treinador Larry Brown (em 2005), permanecia forte, e a segunda melhor campanha em 2007/2008, sob o comando de Flip Saunders, com 59 vitórias, ratifica isso. A superioridade de ambas as franquias, naquele ano, fez lembrar a rivalidade do final da década de 80, e pode ser comprovada durante o 2008 NBA All-Star Game. Afinal, Celtics e Pistons, juntos, enviaram 6 atletas para o Jogo das Estrelas (Pierce, Garnett e Allen, pelo lado de Boston, e Billups, Hamilton e Rasheed Wallace, por Detroit). Não obstante, o treinador da equipe do Leste foi o treinador celta, Doc Rivers.

Na 2008 Eastern Conference Finals, Boston e Detroit encontravam-se, pela sétima vez, nos Playoffs. E, mais uma vez, o Celtics saía vencedor, dessa vez em 6 jogos. Muito embora o Pistons tenha tirado a invencibilidade celta no TD Garden, no jogo 2, o Celtics mostrou sua força e recuperou o mando de quadra já no jogo 3. Não obstante, o maior campeão da NBA voltou a derrotar o Pistons em sua casa, no jogo 6, vencendo o Leste e voltando à NBA Finals depois de 21 anos. Como todos sabem, naquela temporada, o Celtics derrotou o Lakers nas Finais, conquistando seu 17º título. Abaixo, os melhores momentos do Game 6 daquela série contra o Pistons:

Se a fase áurea do Pistons começou após a eliminação para o Celtics, em 2002, também encerrou-se nas mãos da equipe de Boston, em 2008. Depois dessa eliminação, o Pistons, lembrando a decomposição do elenco Bad Boys, foi se desfazendo de seu elenco aos poucos, com Chauncey Billups sendo trocado em 08/09 e Rasheed Wallace indo para Boston em 09/10. Posteriormente, Hamilton foi vestir a camisa do Bulls e Prince, último remanescente do elenco campeão em 2004, foi trocado com o Memphis Grizzlies.

O Boston Celtics, por sua vez, após o título de 2008, continuou perseguindo o 18º banner, mas caiu próximo de seu objetivo nos anos posteriores, tendo como melhores resultados, o vice-campeonato em 2010 e a queda na East Finals, em 2012. Na offseason para 2012/2013, com a saída de Ray Allen para o Miami Heat, o Celtics despediu-se de seu Big 3 e o temido processo de reconstrução se aproximava, virando realidade em 2013/2014.

Desde então, Celtics e Pistons buscam, mais uma vez, encontrar novos jogadores capazes de devolvê-los ao lugar que merecem, e ficam na esperança que Marcus Smart, James Young, Isiah Thomas, Jared Sullinger e cia. (Celtics), e Reggie Jackson, Kentavious Caldwell-Pope, Greg Monroe e Andre Drummond (Pistons), sejam alguns dos eleitos para conseguirem tal feito.

Assim, o jogo de hoje a noite, além de ser importante para as equipes, também o é para os jogadores: é mais uma boa chance de provarem para si, torcedores e para o mundo, que são capazes de lidar com a pressão de reconduzir essas duas enormes equipes aos seus tempos de glória.

Rômulo Portugal
Rômulo Portugal

Rômulo é carioca, advogado, e fã de futebol, NBA e NFL. Acompanha o Celtics desde 2003. Seu fanatismo pelo maior campeão da NBA o fez torcer para os demais times de Boston. Como bom carioca, é Vascaíno. Tem Paul Pierce como primeiro e grande ídolo na NBA.

5 Comentários

  1. Barry disse:

    Cara Obrigado. Como é bom rever o Pierce em videos.
    Agora a pergunta. Quem está na frente no processo de reconstrução?

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    • Rômulo Portugal disse:

      Difícil dizer.

      O Celtics acumulou picks, exceções comerciais e tem um bom núcleo jovem, com Smart, Young, Sullinger e cia.

      No entanto, o Pistons reuniu uma garotada que eu curto bastante também: Reggie Jackson, KCP, Monroe e Drummond.

      Os 2 últimos formam um dos melhores garrafões da NBA. Jackson chegou mostrando ser capaz de ser um PG starter na liga, e KCP melhorou muito na sua segunda temporada. Muito mesmo.

      Enfim, e ambas as franquias tem bons treinadores, com Stevens e Van Gundy.

      Para não ficar em cima do muro, diria que o Celtics tende a ter um futuro melhor, já que tem mais atrativos para aquisição e troca de jogadores, e o Pistons pode vir a perder Jackson e Monroe na próxima offseason.

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  2. The Real Jay disse:

    Parabéns pelo texto Rômulo! S.V e S.C

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  3. […] Detroit Pistons, acostumado a ver o ídolo Isiah Thomas arrasar o Boston Celtics nos confrontos de enorme rivalidade no fim dos anos 1980, viu o armador reserva do Boston Celtics, o quase homônimo Isaiah Thomas, ser o grande nome da […]

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  4. sandro disse:

    Esses textos que contam as histórias gloriosas das franquias são sensacionais.Muito bom ver outras décadas quase sempre com os Celtics brigando pelo topo.Ótima matéria.

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