02

maio

2017

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A difícil infância de Marcus Smart e o dia em que quase foi morto

Seis anos antes de jogar pela Oklahoma State, o armador Marcus Smart se tornou um dos jogadores mais respeitados do basquete universitário. Mas você sabe o que ele fazia antes de seguir a carreira no basquete? Ele jogava pedras na cabeça das pessoas.

Como um despretensioso garoto do Texas se tornou uma das estrelas da NCAA e posteriormente jogador profissional na NBA? A história que vamos contar aqui nos leva através de uma viagem pela conturbada infância de Marcus, passando por questões como perda pessoal e auto-descoberta.

Uma grande raiva acendeu dentro dele depois de ver o câncer lhe tirar um irmão mais velho, e a cocaína quase destruir o outro. Isso tudo acontecia em um bairro ao sul de Dallas, que Smart definia como uma espécie de zona de guerra para os moradores. Smart, com 12 anos de idade na época, sofria ao tentar infligir sua dor e transferir sua raiva para os outros.

Uma vez, em certa noite como tantas outras, perto de sua casa em Lancaster, Marcus e um amigo enchiam seus bolsos de calças com pedras, se posicionando no segundo andar do conjunto habitacional que eles chamavam de “The Pinks” (pela cor da construção), procurando um alvo para começar a molecagem. Marcus nunca desconfiara de que essa seria uma noite tão importante em sua vida.

Na rua em frente ao prédio, um homem passava em uma bicicleta e um casaco preto encapuzado, e esse foi o escolhido para Marcus e seus amigos arremessarem as pedras. Quando a primeira pegou no homem com a bicicleta, a molecada comemorou se parabenizando e soltando gargalhadas até que – Bam! – um barulho alto de um objeto caindo no chão. Quando Marcus olhou de novo, tudo o que viu foi a bicicleta largada na rua. E tudo o que ouviu foi a pisada forte de um homem correndo pela escada e uma voz frenética prometendo matá-los.

Marcus e seu amigo saltaram sobre a grade do segundo andar, aterrissando no duro concreto abaixo. O homem rapidamente os seguiu. Alimentado pela adrenalina e pelo medo, Marcus correu mais rápido do que nunca, ziguezagueando por becos até um complexo adjacente chamado “The Meadows”.

Atrás de Marcus, os passos e a voz ameaçadora aumentavam. Marcus não sabia que o homem era um membro da gangue de rua chamada “Bloods”. E até olhar para trás nas ruas mal iluminadas, ele não sabia qual objeto o homem segurava em sua mão: um revólver carregado.

Naquele momento Marcus sabia que ele não era mais uma criança inocente que pedalava sua bicicleta em botas de cowboy para o McDonald’s para comprar sorvete. Ele sabia que tinha se transformado em mais uma alma perdida talvez com apenas alguns segundos para respirar. Com o coração batendo forte e encharcado de suor, ele respirou tão incontrolavelmente que sentiu seus pulmões trancarem.

Quando o homem conseguiu chegar a cerca de uns 15 metros de distância, Marcus ouviu o som de quatro disparos.

Smart conta nos dias de hoje:

Tudo que eu pensava era: “Vou morrer? É assim que eu morro? O que ele vai fazer se ele me pegar?

Quando os fãs assistem Marcus jogar basquete agora, correndo para cima e para baixo na quadra com uma intensidade que poucos conseguem igualar, há pouca evidência daquela raiva. Vários jogadores da NBA são mais talentosos do que Marcus, mas poucos possuem tal conjunto de habilidades únicas, e ainda menos são tão relutantes em se gabar disso. Para Marcus, suas estatísticas não importam muito; As estatísticas de seus companheiros de equipe são mais importantes. Ele rejeita a atenção em uma época em que a maioria a deseja.

“É a personalidade dele”, diz o melhor amigo de Marcus, Phil Forte, um amigo de Smart desde a terceira série. “Ele gosta de jogar pra valer, gosta de dar tudo de si… as vitórias fáceis não são as preferidas dele.”

Fran Fraschilla, analista da ESPN e morador de Dallas que assistia Marcus jogar desde a oitava série, diz:

É muito raro ver um jovem jogador com a maturidade e conhecimento de um veterano de 10 anos de profissional. Se você está entrando em uma briga de bar, e você tem um Hulk do seu lado, você se sente muito bem… acho que é assim que os companheiros de Smart se sentem com ele.

Poucos sabem como Marcus se tornou a pessoa que ele é hoje. Marcus diz: “As pessoas sempre me perguntam, ‘Como você é tão humilde?’. Quando você passa por coisas como eu passei, há apenas uma maneira de ser. A vida não é um jogo, o mundo é muito frio lá fora – o mundo é muito frio – e se você não aprender e entender as coisas rápido, o mundo pode te comer vivo.”

Poucos sabem como a sua infância alimentou sua competitividade e moldou a sua personalidade batalhadora. Marcus diz que compartilhou histórias nessa reportagem, incluindo muitos detalhes que ele nunca contou aos familiares próximos, de modo que outras crianças problemáticas que sofreram a perda de entes queridos e que cresceram em ambientes difíceis possam usar como um bom exemplo.

“Eu penso nisso todos os dias, é incrível”, diz Marcus. “Graças a Deus, eu tinha meus pais e irmãos mais velhos, minha mãe e meus irmãos são meus heróis… Se eu não mudasse o que eu estava fazendo, estaria morto ou preso provavelmente”.

Marcus foi criado em uma família unida que raramente brigava apesar dos problemas. Havia sua mãe, Camellia Smart, 58 anos, que ia para hemodiálise três vezes por semana e que viveu com um rim desde que uma pedra no rim acabou com o outro há duas décadas. Há seu marido de 38 anos, Billy Frank Smart, o pai biológico de 66 anos de Marcus e seu irmão Michael Smart. Ainda há Todd e Jeff Westbrook, que nasceram de pai diferente décadas antes de Michael e Marcus nascerem.

Camellia, que os irmãos consideravam uma verdadeira heroína por sua coragem e ética, era o coração da família. Todd, uma segunda figura paterna para Michael e Marcus, era a sua espinha dorsal.

Marcus sabia que se alguém estivesse destinado a jogar na NBA, era o irmão Todd, que acertava 62% dos arremessos na temporada como armador para a Escola de Lancaster. No momento em que Marcus batia sua primeira bola de basquete por toda a casa, ele já tinha ouvido todas as histórias dos anos 1980 que o fez idolatrar Todd.

Marcus sabia que quando os médicos encontraram um tumor por trás do olho de Todd aos 15 anos, sua mãe sentiu que “alguém pegou uma faca e partiu o coração dela em dois”. E ele se impressionou com a força de Todd, que mal se estremeceu, dizendo ao médico: “Ok, e agora o que precisamos fazer em seguida para enfrentar isso?”

Embora o câncer tenha se espalhado para seus pulmões, e em seguida, seu estômago, Todd sempre encontrou força e dedicação suficiente para orientar seus irmãos. Ele lhes ensinava tudo…como fazer a barba, apertar a mão de um homem e a se comportar em entrevistas de emprego. Ele explicou até como se usava uma camisinha. Mesmo quando ficou magro e muito fraco para caminhar até o banheiro, ele costumava chamar Michael e Marcus em seu quarto para assistir Discovery e History Channel.

“É isso que eu sempre admirei nele”, Marcus diz, “essa resiliência e essa ambição de continuar vivendo mesmo sabendo que você não tem muito tempo”.

Como todo garoto de 9 anos, nada significava mais para Marcus do que sua família. Quando Camellia viu que ele estava usando tênis com buracos na sola, Marcus deu de ombros. Quando um parente se ofereceu para comprá-lo um tênis da Nike, ele apontou para o tênis de 19 dólares em vez disso. E em dezembro de 2003, quando Camellia lhe perguntou o que queria para o Natal, Marcus só disse uma palavra: “Nada”.

“Sério querido, o que você quer?” Camellia repetiu.

– Mãe, não quero nada – respondeu Marcus. “Só peço à Deus que abençoe a mim e a minha família para estarmos juntos no Natal”.

Junto de sua família para passar as férias, o pedido de Marcus foi atendido. Mas pouco depois, em 9 de janeiro de 2004, a tia de Marcus chamou ele e seu primo do quintal para dentro de casa, pediu-lhes para se sentar e lágrimas entregaram a notícia que todos temiam: Todd estava morrendo. A família estava no hospital. Marcus olhou para aquela cena, pensando que tudo era um pesadelo.

Então ele saiu correndo pela porta, batendo-a tão forte que o vidro rachou. Seu primo o perseguiu, agarrando Marcus no chão enquanto ele gritava e chorava.

Todd, aos 33 anos, e depois de 18 anos de batalha contra o câncer, havia morrido.

No quarto do hospital de Todd, entre parentes chorando e ainda tentando falar com Todd, Marcus caminhou até o pé da cama, lentamente se ajoelhou e tocou o pé de Todd. “Estava frio como o gelo”, lembra ele. “Nunca senti algo tão frio e tão rígido no corpo humano antes.”

Camellia, com lágrimas escorrendo pelo rosto, pegou Marcus e lhe disse que tudo ficaria bem. Ainda em descrença, Marcus caminhou para o outro lado da cama pensando que Todd estava apenas dormindo. Marcus o sacudiu e gritou, “Todd, acorde!”

Marcus caminhou até a borda da cama e deu um beijo no rosto de Todd. Marcus então pôs as mãos no ar, dizendo: “Todd agora vai ser nossa estrela lá do céu.”

Perder Todd foi um golpe que a família teve bastante dificuldade para superar. Em sua casa, Marcus e Michael, às vezes ao mesmo tempo, não podiam deixar de rastejar para a cama de Todd à noite, adormecendo com aquele som familiar do Discovery Channel. Era a mesma sala onde eles sempre colocavam um gancho acima da porta em forma de uma cesta de basquete e se juntariam à Todd para arremessar bolas de meia até que Todd ficasse cansado.

Agora, sem Todd, os irmãos encontravam uma maneira de se cercar com a memória de Todd, suas imagens e sons.

Mas não parou por aí. Marcus também teria outras imagens persistindo em sua mente: seu irmão de 19 anos, Michael, que tinha sido um talentoso armador na Escola de Lancaster, começava a entrar para o mundo das gangues, drogas e armas. Michael tornou-se um membro da gangue de rua “Bloods” e começou a agir como se sua vida não valesse mais de nada.

Michael viu amigos acumulando até US$ 8.000 por semana trabalhando nas ruas, dirigindo Mercedes e BMW. Eles andavam cobertos de ouro e diamantes e tinham TV’s de tela plana maiores do que as TV’s do resto da comunidade.

Marcus assistiu o trampolim de Michael naquela vida e quase se afogou. Michael diz que ganhou US$ 2.500 por semana, vendendo crack e outras drogas, também agenciando mulheres de programa. Para se proteger, diz que tinha pelo menos cinco armas de fogo em casa: Calibre .40 e .45, uma TEC-9, uma AK-47 e uma espingarda de calibre 12.”

Depois que eles se mudaram para Lancaster, Marcus às vezes corria para a esquina da Rua Bluegrove para fazer inúteis tentativas de conseguir trazer Michael de volta para casa. Marcus ficava esperando até altas horas da madrugada para se certificar de que Michael – embora às vezes altamente drogado – voltasse para casa seguro.

Com apenas 10 anos, ele se sentava perto de Michael na escuridão da casa e dizia a ele: “Mamãe não precisa de um telefonema às duas da madrugada, dizendo que te encontraram na prisão ou enterrado em um caixão. Ela já perdeu um filho.”

Marcus ergueu a mão e enxugou as lágrimas do rosto de Michael.

– Fique longe de problemas – disse Marcus. “Eu prometo, estou com você irmão.”

Olhando para trás oito anos depois, Marcus diz: “Tínhamos muitas noites assim, eu estava crescendo ao redor, eu estava vendo a dor dele, eu não gostava do que ele estava fazendo, mas ele continuava sendo meu irmão e eu nunca deixei de o amar…

Menos de um ano após a morte de Todd, Marcus estava em um torneio da AAU (liga amadora de basquete juvenil) quando Camellia lhe enviou uma mensagem dizendo que Michael estava no hospital. Durante uma compulsão de um mês seguido usando cocaína, Michael caiu duro de overdose em casa e machucou seu olho. Gary Westbrook, seu tio, que ficou paraplégico depois de ter sido baleado na espinha em um assalto, saiu de sua cadeira de rodas para bater no peito do sobrinho tentando reanimá-lo antes de ligar para a emergência.

E mais uma vez, Marcus estava em um longo corredor de hospital, preparando-se para outra despedida traumatizante, pensando que ele poderia perder um segundo irmão no espaço de um ano. Ao entrar na sala, suas emoções giraram ao ver os tubos saindo de Michael.

Marcus segurou sua mão.

“Eu me lembro do olhar nos olhos de Marcus”, diz Michael. – E foi assustador.

Marcus diz, “Ele deveria ter morrido, a quantidade que estava em seu corpo era perigosa demais.”

Michael lembra-se do médico dizendo: “Estou aqui para salvar vidas, se você quer fazer isso com você mesmo, não venha aqui me atrasar.

Michael felizmente se recuperou e foi à missa da igreja naquele domingo. Embora ele não tenha se aposentado da vida nas ruas, ele diz que nunca cheirou cocaína novamente. Ele prometeu manter Marcus longe daquilo tudo. E ele disse aos membros da gangue para deixar Marcus sozinho ou iriam enfrentar a ira de Michael.

“Você vai por um caminho diferente”, disse Michael a Marcus. “Não fique com medo que uns idiotas te chamem de gay ou de diferente por não estar nas gangues, você vai ser diferente… e eu te prometo que seis anos depois, quando você olhar para trás, vai ver quem é diferente e quem fez a diferença”.

Mas os problemas estavam começando a aparecer para Marcus, cuja raiva fervilhava dentro da cabeça com todos os acontecimentos. Quando criança, dificilmente cometeu deslizes, exceto quando diz que estupidamente fumou maconha com amigos, a única vez em sua vida, quando ele não tinha mais de 8 anos. Ele diz que aquilo o deixou tão mal que teve que admitir, mesmo envergonhado, para sua mãe que havia fumado.

Mas depois de perder Todd e quase perder Michael, enquanto rodeado por colegas de classe tatuando sinais de gangues e carregando armas nas esquinas, Marcus diz: “Eu só me senti realmente perdido. Eu estava definitivamente mudando.”

Ele e seus amigos roubavam doces, comida e refrigerante das lojas de postos de gasolina. Ele descontava grande parte de sua raiva na quadra de basquete, mas sua maior liberação emocional veio das brigas. Ele se achava um grande valentão, atacando os fracos e também os mais fortes.

“Eu era como uma panela fervendo. Não sabia como me controlar e acabava partindo para a briga. ”

Smart entrava em umas três confusões por semana. Ele procurou por todas as armas que encontrou. Ele atirava pedras e facas para cima das pessoas. Ele lembra de quase ter quebrado o pescoço de um garoto. Ele diz que sentiu realmente que poderia ter matado alguém nessa época.

Em uma ocasião, ele e um amigo foram cercados por alguns caras, que estavam em vantagem númerica. Marcus tirou um canivete. Eles puxaram uma arma “Airsoft”. Depois de levar uma surra, Marcus então foi para casa e pegou a pistola calibre .22 de seu pai. Michael o deteve na porta antes que Marcus tivesse a chance de sair para fazer uma grande besteira.

As brigas na rua continuavam a aumentar na vida de Marcus. Certa vez, ele bateu a cabeça de outra criança contra o concreto em uma confusão. Chegou em um determinado ponto, que o diretor do colégio o chamou em seu escritório e disse-lhe que ele seria enviado à escola reformatória por 30 dias.

“Era como uma prisão”, diz Marcus. “Se seguisse as regras, com bom comportamento você até conseguia sair mais cedo.”

Mas a noite que permanece mais cristalizada na mente de Marcus é quando ele estava correndo para salvar sua pele do homem de casaco preto encapuzado. Ele e seu amigo correram para uma trilha no meio do bosque que conheciam bem.

Eles foram entrando rapidamente pelos atalhos chegando à um arbusto denso, cheio de galhos que os obrigava a abaixar para continuar correndo. O homem não conseguiu se abaixar, e eles ouviram o barulho dele sendo derrubado no chão pelos galhos. Quando conseguiu chegar em casa naquela noite, Marcus mal conseguiu fechar os olhos para dormir.

“Minha vida quase se foi naquela noite”, diz Marcus. “Eu estava apavorado, eu não sabia o que fazer para reverter a situação, por alguma decisão estúpida que eu decidi fazer, uma decisão estúpida que eu nunca imaginei as consequências, que eu simplesmente achava que era divertido com meus amigos, poderia ter facilmente tirado a minha vida.”

“Eu realmente não conto às pessoas sobre essa história…quer dizer, o que você diria, o que você faria se você estivesse em uma situação como essa? Não é uma história legal para tentar se imaginar ali… correndo, correndo literalmente para salvar sua vida.

Marcus nunca disse à Michael que o homem – um conhecido do irmão – atirou nele, só disse que um homem o perseguiu para tentar bater nele. Marcus sabia que se tivesse contado à Michael todos os detalhes, Michael poderia ter matado o homem.

“Você percebe agora como ele pensa?” Michael diz. “Tenho que apenas guardar isso para mim, assim meu irmão não vai ter problemas e eu simplesmente não vou fazer isso nunca mais.” – ele deve ter pensado. “Eu com certeza teria saído e alguém poderia ter sido morto. Ele veio para casa seguro e eu ainda estou aqui.”

E ele nunca disse à sua mãe, mas no momento ela sabia que ele precisava de ajuda, Marcus precisava fugir desse ambiente hostil em que crescia.

“Eu sabia que tinha que fazer alguma coisa”, diz ela. “Você como mãe, sabe quando algo está errado, você pode sentir. Eu sempre disse à meus meninos, não há nada tão difícil acontecendo que os impede de vir e conversar comigo sobre.”

Um dia ela sentou Marcus no sofá para conversar. Conversaram sobre as constantes brigas. “Ele estava cansado de viver ali, eu disse:

‘Querido, por que você não me disse nada disso antes?’ – Camellia perguntou.

‘Mãe, eu não queria te preocupar.’ – respondeu Marcus.

“Eu não deixei as gangues levarem meus outros meninos, e eu não ia deixar que eles levassem Marcus”, diz ela. “Ele estava tão deprimido, lutando contra tudo, a pressão dos amigos atrapalha também.”Se eu fizer isso, faça isso, se não fizer isso, você é um covarde. ” Ele era muito jovem para viver com tudo isso. ”

Marcus frequentou aulas de controle emocional, e ele sempre admite que ajudou muito. A família mudou-se para uma casa na fazenda de três quartos em Flower Mound, um subúrbio a oeste de Dallas. Camellia confiou nos conselhos da família de Phil Forte, o melhor amigo de Marcus que viveu em Flower Mound, para escolher uma boa escola.

Mudar-se naquele momento foi um choque cultural. Marcus agora via pessoas caminhando nas ruas à noite sem instintivamente hesitar. Os amigos lhe diziam que era apenas um homem passeando com seu cão, nada além disso. Marcus agora podia sentar-se na varanda da casa sem ouvir tiros. O efeito positivo daquilo sobre Marcus era notório.

“Era como se ele tivesse nascido outra vez”, diz Camellia. Como se saísse da escuridão para a luz.

Marcus canalizava agora sua energia no futebol americano e depois em seu esporte preferido, o basquete. Os treinadores disseram à Camellia quão impressionados eles ficavam com relação ao Marcus não ter um sentimento de superioridade, que alguns outros bons atletas como ele possuíam. Quando Marcus ganhava troféus ou prêmios, ele rapidamente os colocava de lado e ia para o YouTube para assistir vídeos de técnicas de basquete, como o jogo de pés de Kobe Bryant por exemplo. E quando as cartas de recrutamento para o universitário vieram, ele não se debruçou sobre eles… em vez disso foi treinar arremessos no ginásio com Michael, seu irmão.

Quando relembra a infância que passou com Marcus, os olhos de Michael agora se enchem de lágrimas ao falar sobre seu irmão mais novo. Ele diz que olha para Marcus na verdade como se ele fosse o irmão mais velho. Michael diz que Marcus frequentemente o encoraja a manter sua vida acima da média e diz a ele como ele está orgulhoso de ver Michael, que agora tem 27 anos trabalhando em um armazém de estocagem, desistindo de vez das drogas.

“Deus me colocou nessa vida por uma razão”, diz Michael. “E eu acho que essa pode ser a razão – ajudar meu irmão. Ele está fazendo algo que minha mãe queria para todos nós, é um cara bem sucedido. Ele está nos fazendo acreditar em dias melhores. Você olha para Marcus e a vida dele está completa, ele tem tudo que podemos pedir à Deus.

“Quando a mamãe olha para Marcus hoje, isso simplesmente ilumina seu dia, Todd se foi, mas ele está morando em Marcus, pode parecer loucura cara, mas você pode dizer que conheceu Todd porque conhece Marcus, Marcus parece um irmão mais velho, assim como Todd”.

De volta à casa no subúrbio de Camellia, cheia de troféus de Marcus, de basquete e de tênis Adidas do McDonald’s All-American, ela caminhou até a lareira e pegou uma foto da equipe de Todd da temporada de 1987-1988 da Escola de Lancaster. Todd voltou para a temporada de sênior, apesar de jogar com pouco mais de um olho e ainda ajudou Lancaster à um ranking No. 2 no regional do Texas.

Na foto, Todd usava o número 3, o mesmo número que cada irmão usou na escola. Cada irmão tem uma tatuagem em memória de Todd. Marcus também estava interessado em usar o nº 3 em Oklahoma State, mas foi dito que não estava disponível, porque Dan Lawson, que morreu no acidente de avião em Oklahoma no ano de 2001, tinha usado. Marcus então escolheu a 33 na universidade porque era a idade de Todd quando ele se foi.

Marcus reflete hoje sobre sua vida todos os dias, valorizando cada aprendizado que obteve ao longo do caminho, até chegar ao ponto atual, em que ele entra em quadra determinado a sempre jogar duro e deixando o ego de lado em prol dos companheiros. Ele sempre carregará a determinação que Todd teve na vida, para que o nome de seu irmão e seus ensinamentos não tenham ido em vão.