23

fevereiro

2011

12

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O basquetebol e o gosto de decidir

O Basquetebol é o esporte mais expressivo das pugnas típicas das sociedades industriais, dos grandes aglomerados humanos do final século vinte e início do terceiro milênio, do tipo de vida e do esforço necessário à sobrevivência em sociedades altamente competitiva. Como nas ruas repletas da explosão demográfica, no Basquetebol “viver” é esbarrar.

O que caracteriza a vida nas sociedades competitivas? Luta, sempre. Nenhum descanso. Atividade doentia.Nenhum esporte coletivo exige tanta mobilização (permanente e conjunta) da equipe. No Basquetebol ninguém pára. Jamais. No Futebol a defesa descansa enquanto o ataque se esfalfa (esgota-se). E vice-versa. Há hiatos, paradas, pausas. Idem no Vôlei. Basquetebol não. Os quintetos correm e jogam com ou sem bola. O tempo todo. É infalível.

A hiper-atividade do Basquetebol traz o traço central constitutivo das sociedades industriais. A necessidade de produzir e a corrida pelo progresso material não param, jamais, a pretexto de nada.

O elemento simbólico mais sutil da associação do basquetebol é a sociedade pragmático- industrial (aplicações práticas), está no fato de que o cronômetro para a cada interrupção de jogo. Em outras palavras: durante as horas de trabalho não há folga. É luta extensa e intensa, jamais pretensa.

A palavra tensa aparece e é oportuna com seus prefixos, pois tensão permanente é a regra do bem jogar Basquetebol, como do bem servir (escravatura disfarçada) à sociedade industrial.

O Basquetebol é o talvez mais tenso dos jogos. Exige atletas do mesmo tipo de homens preparados para a sociedade industrial contemporânea: aguerridos, super-treinados, incansáveis, grandes e pertinazes trabalhadores profissionais.

Esta tensão é responsável pela presença permanente da briga corporal. O Basquetebol deve deter o recorde de brigas em campo.E com grande razão! A tensão necessária a jogá-lo (mesmo com calma, experiência e precisão) predispõe o sistema nervoso à explosão. Ninguém agüenta tensões prolongadas e o Basquetebol é o mais tenso dos jogos.

Tenso, porque o resultado pode mudar de repente por vacilação, cansaço ou súbita perda de tônus da equipe. Um bom desempenho não basta.E preciso ademais saber ganhar. A falência é ameaça. Na sociedade industrial os sistemas esmeraram-se em ter homens tensos, trabalhando por pressão sem poder falhar. Os erros são imperdoáveis porque fatais.

Tenso, porque os territórios não são respeitados, Tênis, Vôlei, Tênis de Mesa atacam o adversário do próprio território. Como no Futebol, Basquetebol é um jogo de invasão. Incursiona-se na propriedade do inimigo. Para tal usa-se estratagemas. A resultante é a tensão inerente a toda invasão. E a tensão gera conflito. A guerra simbólica do Basquetebol quase sempre reflui para o real. Dai tanta briga.

Basquetebol é, portanto mobilização total das forças e aguerreamento permanente. Não tem tempo para beleza ou poesia. Beleza utilitária, sim, decorrente de algumas jogadas que, por dar certo enganando a resistência, mereça o aplauso. É um jogo que não permite contemplação: É a ação permanente, vigilância, tática, fôlego. Um jogo pragmático, portanto, como a sociedade competitiva, que atrai temperamentos práticos, objetivos, pessoas de ação ou que gostem de missões secretas ou estratégicas.

A invasão do território inimigo sempre obedece a altas estratégias. Os caminhos estão sempre bloqueados, de perto. Para minar o inimigo são necessários emissários serviços secretos, penetração oculta e sempre fugidia em suas defesas (garrafão). Os ataques são rápidos e fulminantes, vale-se da capacidade de simular e enganar. Não há tempo para raciocínio demorados. Como na sociedade pragmática, ou se decide rápido ou a oportunidade passa, jamais volta e o inimigo dela se aproveita.

Essa característica tensa, imediatista, estratégica e super objetiva do Basquetebol leva a sua prática pessoal que por natureza ou profissão tem uma inteligência prática, lógica e gosta de decidir. Não é um jogo dialético (lógico) metafísico, poético ou político. É pragmático, de ação, de decisão, implacável com quem vacila ou não está preparado.

Um jogador em dia ruim no Futebol não compromete fundamentalmente uma equipe. Um destoante no Basquetebol impede a plenitude. Mobilizar, eis sua regra. Exigir, sua ética. Lutar sempre na tentativa de vencer o adversário menos aguerrido, eis sua mecânica. Diferente da sociedade industrial e pragmática na qual cresceu? Não: é igual a ela em suas características. Dai a consonância entre o sucesso do Basquetebol e o século vinte.

Outro elemento presente no Basquetebol é o da diluição do prazer do trabalho. Quem o pratica sente prazer é certo. Porém o prazer é misturado com enorme trabalho. É um grande esforço que só se compensa com a vitória, jamais com a disputa. Até nisso se liga aos ditames (deve ser) na sociedade industrial, preocupada sempre com os resultados práticos de sua atividade: o Basquetebol não se concede grandes prazeres, folgas, comemorações. As ações são sempre vigiadas de perto. O adversário está sempre em cima atalhando.

Não há tempo para enfeites e jogadas sem objetividade, válidas apenas pela beleza implícita dos gestos. Quem inova demais não serve. A marcação é cerrada. Tudo é sempre interrompido, cortado, impedido. É preciso sagacidade, esperteza, rapidez, para vencer as defesas e barreiras.

Nem a cesta (penetração num objetivo apertado, difícil, hostil, diminuto) permite comemoração orgástica. Feita, é voltar correndo para mais ação, mais ação, mais ação, até o fim. Nada de efusões, delírios de prazer, alegria, comemoração, euforia pela posse do apertado e cobiçado canal cesta. No final, sim, comemorar. Prazer durante o trabalho? Jamais! Perturba a produção…

Essa interrupção permanente do prazer. O mover-se em espaços apertados e vigiados. A inexistência de profundidade espacial (no Futebol há passes de trinta metros) como representação da desnecessidade de qualquer forma de profundidade (espiritual, humana, artística) necessária ao desempenho pragmático. A tensão constante e o dogma fundamental de que só há vitória quando somos mais aguerridos que o adversário caracterizam a atualidade do Basquetebol no século vinte.

De todos os esportes é o que talvez melhor represente os valores e as atitudes típicas das sociedades industriais: valem a produção, a objetividade e o resultado. O resto é secundário. Prazer? Profundidade? Beleza? Espiritualização? Sim, na vida pessoal, jamais no trabalho.

Recebi esse texto do professor Dante de Rose, que por sua vez, disse que o recebeu do Sr. EDIO JOSÉ ALVES, secretário geral da CBB, mas ninguém sabe precisar quem é o autor. Gostaria muito de poder dar os créditos ao verdadeiro autor.