10

março

2011

53

Comentários

O valor dos fundamentos

Não me lembro da última vez que tive tempo, prazer e principalmente paciência para ver o All Star Game da NBA. Provavelmente ainda era um jogador que me encantava com o glamour da festa, observava cada jogada com um olhar mais sonhador, como se um dia, mesmo treinando muito, fosse capaz de repetir essas jogadas nos jogos e treinos, doce ilusão…

Depois de muito tempo consegui ter tempo ocioso, desde manhã avisei e convidei a minha esposa para assistir e entender como o basquete é tratado e qual valor esse esporte recebe nos Estados Unidos.

Comprei pipoca, litros de mate e refrigerantes, enfim, todos os preparativos para assistir uma grande festa e até planejar uma viagem em família para um dia assistir ao vivo um All Star Game.

Minha esposa me perguntava o que poderia ter de diferente do que vimos juntos no All Star do NBB3 deste ano, realizado em Franca-SP? Eu respondia que principalmente a festa e a qualidade dos jogadores era incomparável mas, o que mais queria que ela entendesse, já que não é do meio esportivo, era como a cultura de basquetebol existente lá é bastante diferente da que vemos por aqui. Tentei até comparar ao nosso futebol e disse que seria semelhante a um evento que juntasse os melhores jogadores de cada time num jogo festivo, onde a “arte” e a valorização do show fossem os temas principais e não a competição e o placar do jogo.

Começou a partida com belas jogadas, defesas coniventes e competitividade zero. Minha esposa se animava apenas nos intervalos com as músicas e pela quantidade de celebridades, acho que ela entendeu a importância que é o basquetebol nos EUA.

No intervalo entre o segundo e terceiro quarto ela tentou trocar de canal e eu pedi respeito pelo meu trabalho, quase iniciamos uma discussão até que Rihanna entrou em cena e acalmou as coisas, ela ficou animada e até lembrou da proposta de um dia, se o orçamento permitir, viajássemos para assistir ao evento ao vivo, confesso que estava distraído prestando atenção nas belas formas da cantora, onde até conhecia as músicas e o nome dela, porém nunca havia ligado o nome a pessoa e que imagem, vista no HD então…

No meio do terceiro quarto minha esposa já dormia, pensei em acorda-la para ver o jogo, mas desisti. Que jogo? Vi o atleta do time da casa fazendo de tudo para ser cestinha da partida, esquecendo que aquilo era uma festa, onde mesmo na sua casa, os convidados queriam participar, mostrar o porquê de estarem ali, na outra equipe via uma rotação e um certo espírito de coletividade e pensei:

Poxa esses atletas não entendem que são ídolos? Que existem milhões de jovens praticantes do basquetebol, assistindo a partida que copiam todas as suas atitudes e que é função deles transmitir a cada partida ou entrevista, atitudes positivas e que incentivem os jovens a se tornarem atletas e cidadãos. Afinal, essa é a graça do esporte coletivo, onde o individualismo atua em função da coletividade e a prova a força que a coletividade imprime no indivíduo.

Acabou o jogo e as estatísticas mostravam que um atleta do time que não venceu o jogo havia feito um TRIPLE DOUBLE!!! (10 ou mais acertos em 3 fundamentos diferentes) sem jogar muito tempo, os números “surgiram” naturalmente. Porém, o atleta local, o anfitrião da festa conseguiu, após forçar bastante a barra, ser o cestinha da partida. Fiquei atento a escolha do MVP (jogador mais valioso da partida) e pensava:

– No país que mais estuda e conhece o jogo, duvido que não irão privilegiar o todo, o conjunto de fundamentos, o trabalho em equipe e até as estatísticas( os americanos são viciados em estatísticas) e dar o prêmio de MVP para um jogador que não é de Los Angeles, novamente doce ilusão…

Talvez eu tenha esquecido que nos EUA e principalmente a NBA, o business e a cultura onde os vencedores são tudo e os derrotados são lixo e que não importa a forma com que essa “vitória” foi conquistada se ela foi um exemplo para os jovens praticantes ou não, pouco importa.

Fiquei tão irritado como o país do basquetebol perdeu a chance de na hora de mostrar para o mundo e para os leigos o que deve ser valorizado no basquete, preferiram mostrar toda a valorização da arrogância e do egoísmo tão comuns naquele território.

Fiquei um tempo paralisado e refletindo a frente da televisão, acordei minha mulher que sem entender porque eu estava tão irritado disse: Desculpe, está muito tarde estou com sono e amanhã eu trabalho…

Antes eu tivesse dormido também, pois cheguei a conclusão que mesmo aos 31 anos de idade, vivendo o mundo do basquete desde os 6, ainda tenho ilusões, ou melhor, esperanças de ver exemplos vindos do basquetebol e que estes, se tornem importantes para quem pratica ou simplesmente para quem assiste e que faça cada um destes refletir de um modo geral sobre a vida.

O que os leitores do CelticsBrasil acharam da escolha do MVP do All Star Game? Não se esqueçam, All Star Game de LOS ANGELES…

Por: Marcello Berro