02

março

2017

35

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A oportuna paciência de Danny Ainge no Mercado de Transferências

Muito se fala sobre a falta de atividade do Boston Celtics na última Trade Deadline. Reclama-se que o Celtics não apresentou nenhum reforço visando aos playoffs desta temporada, e, em contrapartida, os adversários diretos de Boston na Conferência Leste reforçaram-se com bons nomes. Tudo isso é verdade. Mas por que isso aconteceu? Danny Ainge não quer ser mais competitivo? É claro que não! E explicarei o porquê nas próximas linhas.

Ainda antes do fervor da Trade Deadline, em momento que precedia até o All-Star Weekend, Danny Ainge deu entrevista esclarecedora à Rádio 98,5 The Sports Hub’s Toucher & Rich, na manhã do dia 16 de fevereiro. Nela, esclareceu seus planos para os dias que viriam e sua paciência em esperar pelo negócio certo, que fosse um jogador de grande impacto (o que o mesmo classifica como ‘peixe grande’) e que mantivesse a equipe competitiva em longo prazo.

“Eu estou certamente ciente de toda nossa competição em torno da Conferência Leste. Não é uma falta de desejo de querer fazer uma troca, mas como uma organização, nós temos prioridades e um plano. Nós não estamos procurando por ‘Band-Aids’ (‘tapa-buracos’) e nós não estamos procurando desistir de alvos futuros. Estamos tentando construir algo mais sustentável do que um ‘jogador de aluguel’.”, esclareceu Ainge.

Danny Ainge já presumia os movimentos de mercado que viriam a acontecer. Quando fala em ‘jogador de aluguel’, Ainge apontava para atletas com contrato expirante, que ficariam três meses na equipe do Celtics e em seguida testariam o mercado (por exemplo, Serge Ibaka e PJ Tucker). Já os tais ‘tapa-buracos’ referem-se a jogadores que resolveriam os problemas do Celtics na temporada atual, mas que atrapalhariam a flexibilidade salarial da franquia no futuro (caso de Tyson Chandler).

Exatamente uma semana depois destas declarações, no último dia para trocas da NBA, o Celtics acabou não fazendo nenhum movimento no mercado, mantendo o elenco atual e todos seus ativos. Obviamente, a torcida de Boston ficou enfurecida e decepcionada com a não chegada de nomes que resolvessem os grandes problemas do time atual do Celtics. Mas com todas as informações sendo apuradas, e os mistérios das especulações sendo resolvidos, mais uma vez os fatos acabaram dando razão a Danny Ainge.

Ainda na mesma entrevista, Ainge explanou a respeito dos rebotes e da defesa de garrafão da equipe, os grandes problemas do Boston Celtics na temporada, mostrando que os defeitos de Boston, de que tanto os torcedores reclamam, não passam despercebidos pelo chairman. No entanto, Ainge também explicou que não ter um bigman reboteiro faz parte da estratégia de jogo ofensiva comandada pelo treinador do Celtics, Brad Stevens.

“Falamos sobre isso antes da temporada começar que nossa maior fraqueza é o rebote defensivo. Por isso que em muitos jogos vemos nossos guards pegar muito rebotes, porque não é um foco do time. Mas, é também nossa maior qualidade jogar com jogadores mais habilidosos. Quando temos Kelly Olynyk e Al Horford na quadra, e a quadra está espaçada para o Isaiah (Thomas) e temos arremessadores de três pontos nas posições de garrafão, é por isso que Isaiah está tendo uma grande temporada e estamos marcando muitos pontos nesta temporada. Nós não podemos colocar um reboteiro que não saiba chutar na quadra, porque isso pode ajudar nos rebotes defensivos, mas vai nos custar na nossa maior força ofensiva. Sabemos nossas fraquezas. Gostaríamos de ter um protetor de aro e reboteiro. Ao mesmo tempo, gostamos de ter jogadores de garrafão habilidosos para jogar ao redor de nossos guards.”, explanou Danny Ainge.

Outro fator que conta contra o Boston Celtics é a fama de bom negociador que Danny Ainge criou ao redor da liga. Como já dito em matéria do Celtics Brasil, baseado em declaração do Gerente Geral do Houston Rockets, Daryl Morey, reportado pelo Boston Globe, em evento do setor de Economia e Negócios do MIT, uma das mais conceituadas Universidades do mundo no ramo, Ainge foi considerado o melhor negociador da NBA. Além disso, os muitos ativos que o Celtics possui fazem com que cresçam os olhos das demais franquias da liga.

“Todos sabem os ativos que temos e os jovens jogadores que temos. Em qualquer negociação que temos, o preço é altíssimo por conta do que temos em banco. Este é o desafio que estamos enfrentando e estamos tentando nos manter no nosso planejamento. Temos mais interesse em conseguir um jogador que mude o patamar da equipe em curto e longo prazos, do que contratar alguém que jogará apenas os últimos 25 jogos da temporada.”, completou Ainge.

O Celtics focou suas tratativas nos “peixes grandes” Jimmy Butler e Paul George, mas Bulls e Pacers foram irredutíveis em suas pedidas altas (escolhas de primeira rodada do Nets em 2017 e 2018, Jaylen Brown, Marcus Smart, Avery Bradley e Jae Crowder estariam nos pacotes pedidos pelas equipes). Aceitar algum destes negócios destruiria tudo o que fora construído até então, e colocaria os dois em um elenco deserto, sem tantas opções, o que faria com que o Celtics até regredisse em desempenho.

Dos “jogadores de aluguel”, o Celtics tentou tanto Serge Ibaka, quanto PJ Tucker, antes dos mesmos se acertaram com o Raptors. O Celtics chegou a ter uma proposta aceita pelo Orlando Magic (Terry Rozier e uma escolha de primeira rodada do Celtics em 2018), mas a falta de um comprometimento de Ibaka em renovar seu contrato com o Celtics na próxima offseason fez com que Boston recuasse no negócio. Também pudera, perder dois ativos interessantes para receber um jogador que ficaria apenas três meses na equipe, não tornaria o Celtics favorito ao título, e em junho testaria o mercado de agentes livres? Corretíssima recusa de Ainge.

O caso de Tucker é mais curioso. Apesar de fechar por um pacote mais modesto com o Raptors, o Suns exigia muito mais do Celtics (diz-se que o Suns exigia uma escolha de primeira rodada e Ante Zizic). E o GM do Suns manteve-se firme em sua alta pedida, até que o Celtics perdeu a paciência e encerrou negociações. Ao que tudo indica, o Suns queria “vingar-se” da negociação por Isaiah Thomas e não aceitaria negociar Tucker se não fosse por um “roubo”. Ou seja, vendo que Tucker tinha outros interessados, o capricho do GM do Suns falou mais alto, e ele quis passar a perna em Ainge para poder virar capa de jornal. Não conseguiu.

O Celtics ainda tentou negociar com Andrew Bogut e Terrence Jones, após ambos serem dispensados por suas equipes e tornarem-se Agente Livres Irrestritos. No caso de Bogut, ele chegou a ter uma boa conversa em reunião com Ainge e marcou uma outra conversa informal com Brad Stevens. Além disso, ele comunicou-se com alguns jogadores do Celtics, para investigar como se encaixaria no vestiários da equipe. No entanto, Bogut acabou por escolher o atual campeão, favoritíssimo ao título do Leste, e favorito ao título, Cleveland Cavaliers.

O caso de Jones, por outro lado, é um que exemplifica o termo ‘tapa-buraco’ usado por Danny Ainge em sua entrevista transcrita anteriormente. Jones é um ótimo ala-pivô, que espaça a quadra, defende com excelência, ótimo reboteiro e que seria um ótimo encaixe no elenco atual. No entanto, Jones exigia um acordo mais longo com o Celtics, o que comprometeria a flexibilidade financeira da equipe para a próxima temporada. Desta forma, não houve acerto entre as partes.

No fim das contas, Ainge foi perfeito em todas suas negativas nesta Trade Deadline, já que, em todos os cenários postos, o Celtics regrediria alguns degraus em sua reconstrução. Ainge manteve os ativos, os jovens jogadores, os ótimos contratos e a flexibilidade salarial que o Celtics possui. Todas as fichas de Ainge parecem estar guardadas para a próxima temporada.

Na offseason de 2017, o Celtics possui 6 contratos expirantes que totalizam quase 30 milhões de dólares. Com esse valor, um Agente Livre All-Star (Durant, Griffin, Hayward, Millsap…) pode ser adicionado ao elenco da equipe. Além disso, o Celtics possui uma altíssima escolha na primeira rodada do Draft 2017, em uma das melhores classes de recrutamento da história, e possui, também, três outros jovens jogadores ganhando experiência ao redor do mundo (Ante Zizic, Guerschon Yabusele e Abdel Nader), e que podem ser assinados após o elenco completado e com a equipe acima do teto salarial da liga, por conta da Rookie Exception.

Falta a nós, torcedores, um pouco da paciência que sobra a Danny Ainge. O futuro desenha-se brilhante a cada dia que passa. Basta ter paciência para apreciar a equipe competitiva, de longa data, que Ainge vislumbra para o futuro.