17

junho

2016

3

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Crônica: Notas de uma boa festa antiquada em Boston, por Bill Simmons

Se o lendário poeta Tyrone Green reescrevesse “Imagens” sobre o jogo 6 das Finais da NBA de 2008, acho que seria assim:

Escuro e solitário em uma noite de verão

Mate o Lakers

Mate o Lakers

Kobe late, o que ele morde?

Mate o Lakers

Mate o Lakers

Chovendo arremessos de três e agarrando seu pescoço

Então quebramos suas esperanças

Tem toda a razão – que diabos?

Mate o Lakers

Mate o Lakers

Mate

LA-Kers

Esta foi uma obliteração. Não há outra palavra: obliteração. O Celtics fez mais do que apenas capturar o seu 17º título na terça-feira, jogando a sua melhor partida na temporada e esmagando o espírito de um inimigo de longa data no processo. Boston 131, Los Angeles 92. E sabe de uma coisa? Nem foi tão perto. Para os fãs do Celtics, a única maneira do jogo 6 ser ainda mais satisfatório foi se Kobe surtasse no último quarto e agredisse Sasha Vujacic durante um pedido de tempo. Em seguida, Kobe seria arrastado por cinco companheiros até o vestiário e gritaria “isso ainda não terminou”, enquanto Sasha soluçava em uma toalha. Talvez isso não acontecesse, mas todo o resto aconteceu.

Você sabe que participou de um jogo especial quando você está tentando dormir naquela noite e algumas coisas estão no lugar: as palmas das mãos estão inchadas e rosadas, quase como quando algum alérgico toca em uma lagosta. Sua voz soa mais rouca e áspera do que Lindsay Lohan depois de beber todas. Seu corpo está coberto de suor, só que você não quer tomar banho porque se sente como se tivesse jogado. Você simplesmente se deita, sorri, pensa em tudo, e ainda pode ouvir os aplausos da multidão, se estiver concentrado o suficiente. Fui para a cama às 2h30 e não adormeci até às 4h.

Existem diferentes maneiras de ganhar um campeonato: em todos eles, há trabalho, mas você gostaria que acontecesse em casa para que os fãs possam compartilhar a felicidade, gostaria de um massacre para que todos possam passar o último quarto sem estresse, comemorando como malucos, observando os meninos comemorar no banco e tudo o mais. O Celtics conquistou o título de 1986 em Boston, destruindo de forma eficaz o Rockets de Olajuwon e Sampson. O jogo aconteceu há 22 anos, quase no mesmo dia, e eu só me lembro de estar comemorando em pé por três horas, pensando o quanto Larry Bird era sobre-humano. Todo mundo achava que estávamos indo para outra dinastia – o melhor jogador, um dos maiores times de todos os tempos, a segunda escolha no NBA Draft… Quer dizer, a vida era boa. Em seguida, Len Bias morreu de uma overdose de cocaína e enviou a franquia em uma dessas piruetas de Goose/Maverick. Bird e McHale se machucaram, Reggie Lewis morreu, e dentro de sete anos, o Celtics não era mais o Celtics.

A noite de terça-feira foi de recuperação de um velho território, parecido com Avon Barksdale saindo da prisão e recuperando as ruas de Baltimore. Mas foi muito mais profundo do que isso. Foi uma coisa de gerações. Para os fãs mais velhos, que foram desmamados na era Bill Russell, como meu pai, o tropeço no banner apareceu bem depois do ponto em que começaram a perguntar a si mesmos: “Meu Deus, eu não sei se vou ver outra equipe campeã”. Para os fãs desmamados na era Havlicek/Cowens ou as equipes de Bird/McHale, como eu, foi como subir no DeLorean de Doc Brown, voltar para a primavera em New England, quando o clima começa a ficar bom, há pólen nas ruas e todos começam a se preparar para os dois meses de jogos dos playoffs de Celtics e Bruins. Para os fãs com menos de 30 anos, foi o rompimento com o passado e o início da formação de suas memórias. Ao invés de ouvir sobre a roubada de bola de Gerald Henderson ou sobre Glenn McDonald salvando uma terceira prorrogação, eles finalmente teriam suas próprias histórias para contar, como os 41 pontos de Pierce no jogo 7 contra o Cavaliers e a reviravolta de 24 pontos para bater o Lakers.

Então, todos estavam em três níveis de euforia na terça à noite. Diga o que quiser sobre esportes, mas eu não consigo pensar em qualquer outra coisa que leva pessoas aleatórias a uma vitória conjunta. Você deve ter visto Causeway Street antes do jogo 6 – verde em todos os lugares que você olhou, todos andando com um propósito, os fãs cantando coisas diferentes, todos muito felizes de estarem envolvidos, como se estivessem em um acampamento celta ou coisa assim. Não posso falar por todos os outros, mas aplaudi por três horas sem parar. Eu pulei de alegria pelo menos umas 50 vezes. Lutei contra um nó na garganta quando Pierce e Doc Rivers estavam se abraçando, perto do fim. Abracei pessoas que eu não conhecia e que se transformaram em James Posey alguma hora.

Tudo era um borrão feliz. Olhando através do meu notebook, na quarta de manhã, tentando decifrar as notas incoerentes, felizmente algumas coisas do borrão feliz se destacam.

Nota 1: 6/17

Se você é um aficionado por numerologia, então você vai desfrutar de um presente. O jogo 6 foi disputado em 17 de junho – em outras palavras, 6 (o número do mês de junho, bem como o número de jogos nas finais) e 17 (o número de títulos de Boston, se você adicionar um para 2008). Dois dos quatro maiores celtas de todos os tempos, Bill Russell e John Havlicek, usavam “6” e “17”, respectivamente. Se você adicionar 6 + 1 + 7, você terá 14, número usado por Bob Cousy, outro dos quatro maiores celtas (se você realmente quiser esticar, 3 + 3 = 6, e “33” foi utilizada por Larry Bird, o quarto elemento desse grupo dos maiores celtas). Se isso não for suficiente, o código de área para Boston é 617. E em uma nota sombria, o Draft de 1986 aconteceu no dia 17 de junho, o último dia em que o Celtics parecia invencível. Eu não sei o que tudo isso significa, mas isso significa alguma coisa, certo?

Nota 2: A cabeçada de KG

Depois de um jogo 5 brutal, Kevin Garnett admitiu depois ter “jogado como lixo”. Isso me deixou feliz. Nós precisávamos dele para dar um show no jogo 6, e como escrevi anteriormente, parecia que ele estava diminuindo o ritmo por causa do momento ou estava totalmente desgastado de manter o motor em quinta marcha, depois de uma cansativa temporada de 107 jogos. Antes de começar o jogo, Garnett ficou na frente da cesta perto do banco do Celtics, murmurou algumas coisas a si mesmo e, finalmente, cabeceou o apoio da cesta do jeito mais forte que podia. Observando de longe, eu e meu pai comentamos: “opa, acho que vamos ver o KG da temporada regular nesta noite”.

E foi exatamente o que aconteceu. Garnett terminou com 26 pontos e 14 rebotes e fez sua habitual defesa fantástica de sempre, mas, mais importante, ele encontrou sua arrogância novamente, um nível de paixão e intensidade que é única dele, só dele. Agora estou convencido que Garnett se cansava muito na medida em que os playoffs evoluíam. Tudo isso significava muito para ele, mas estava muito mal. Até o final do jogo 5, Garnett estava de pés chatos no garrafão, com rebotes importantes saindo dele e indo para qualquer direção. Para alguém com média de 15 rebotes por jogo, parecia incompreensível que ele não podia pegar qualquer um deles. Ele estava sufocado? Ferido? Que diabos? Agora sabemos a resposta: se a temporada jogava-o para baixo, a multidão de terça-feira lhe deu um último impulso de energia, como se 18 mil pessoas despejassem um Red Bull gigante em sua garganta. Ele acabou fazendo uma partida monstruosa quando o Celtics mais precisava dela. Se houvesse uma assinatura de KG naquela final, seria a jogada de três pontos perto do fim do primeiro tempo, quando ele pulou no garrafão, foi derrubado e arremessou quando estava caindo. Em seguida, Garnett ficou deitado no chão, com os braços erguidos, gritando para o teto.

Que fique registrado que KG jogou uma de suas melhores partidas na conquista de um campeonato. É algo que Elvin Hayes não pode dizer, ou Karl Malone, ou Patrick Ewing, ou Chris Webber, ou qualquer outra pessoa do grupo não-tão-decisivo que Garnett escapou. Muito parecido com John Elway após o Super Bowl de 1997/1998. Dúvidas persistentes sobre a capacidade de Garnett em elevar seu jogo nas decisões desapareceram completamente na noite de terça-feira. Elas nunca mais aparecerão. É engraçado como um campeonato pode fazer isso.

Nota 3: Posey, de três, 43-29, euforia!

Aqui é quando as coisas começam a ficar boas – no meio do segundo quarto, quando o Celtics sobreviveu a um início quente de Kobe e algumas marcações curiosas da arbitragem – quando o Celtics abriu vantagem com uma defesa sufocante, alguns arremessos de três pontos e finalmente recompensou a multidão, que estava pronta para vibrar. Você poderia ver o desapontamento do Lakers. Eu não estou brincando. Eles pareciam que queriam sair e pegar o avião para ir embora. Mais importante, isso aconteceu quando os fãs aumentaram o incentivo. Eu sei que isso parece loucura, mas, de todos os esportes, apenas no basquete uma multidão chega a um ponto em que todos pensam: “não há nenhuma maneira de perder hoje”. Você não sabe quando isso pode acontecer, você não pode fazer isso acontecer, mas quando acontece… você sabe.

43-29. Euforia. Nós já sabíamos.

Nota 4: 84-53, 21 assistências, 5 erros, 13 roubadas de bola, 34-17 nos rebotes

Aqui é quando a noite se tornou um pouco surreal, com o Celtics vencendo por 31 pontos no terceiro quarto e dominando estatisticamente o jogo na medida em que me senti obrigado a escrever esses números. O cara que ditou tudo depois do intervalo foi Rajon Rondo, que jogou fora de sua mente e fez com que o Lakers pagasse caro pela estratégia de “vamos marcar todo mundo e fazer Rondo passar pela gente”. Se você aplica o teste de mesa para a segunda temporada de Rondo, você diria que ele trouxe uma tonelada de garfos e pratos para a mesa, e ele definitivamente tirou um monte de facas e colheres. Em outras palavras, talvez ele não tenha dado tudo o que precisava, mas ainda pode comer o jantar com ele. Se Rondo joga bem no mesmo jogo em que Pierce e Allen pontuavam e Garnett estava controlando todo o resto, o Celtics 2008 era imbatível em casa. Repito: sem concorrência. Foi assim na terça à noite.

Nota 5: Paul Pierce: “estou cansado”

A citação de Paul Pierce, depois de um airball da linha dos três pontos, com o Celtics vencendo por 30, resultou em uma substituição necessária e em uma ida para o banco, mancando. O cara estava morto. Dava para ver.

Dos 10 melhores atletas nesta equipe especial do Celtics, sete deles não eram celtas durante o desprezível trabalho de tank da última temporada, e dois deles não eram celtas até janeiro. Tanto quanto eu gosto dos novos atletas e de tudo o que eles trouxeram para a equipe, eu ainda sinto que estou começando a conhecê-los. Posey, House e Brown foram armas contratadas. Garnett pertence a Minnesota. Allen pertence a Seattle e a Milwaukee. Powe, Rondo e Big Baby Davis acabaram de chegar aqui. Essa temporada foi como ter uma grande equipe de fantasia – os caras estavam jogando juntos e fizeram alguma coisa acontecer, mas eles foram jogados juntos.

Mas Pierce…

Eu quero dizer…

Nós assistimos aquele cara crescer. Nós vimos ele se tornar um homem. Nós acreditávamos nele. Não quero soar como o velho homem de “Uma Linda Mulher”, mas parte de mim queria caminhar até a quadra na terça e apenas dizer ao Pierce: “é difícil dizer isso sem soar condescendente, mas estou orgulhoso de ti”. O cara nos deu tudo o que tinha, alterou sua lápide na NBA, ganhou um lugar nas vigas e nos trouxe o 17º título – assim como ele prometeu, por sinal – e suas atuações nos jogos 4 e 5 sempre estarão entre as melhores performances da história do Celtics. Passamos tanto tempo reclamando sobre esportes e nos decepcionamos quando os nossos jogadores favoritos não se tornam aquilo que esperávamos, mas Pierce se tornou tudo o que queríamos que ele fosse. Quando ele levantou o troféu de MVP das Finais após o jogo e gritou para a multidão, acho que nunca estive tão feliz por um atleta de Boston. Quantos caras ficam em uma franquia irregular por 10 anos para, em seguida, ter a chance de levar essa mesma franquia a um campeonato? Isso já aconteceu em outros esportes?

Nota 6: “você se sente seguro?”

Meu pai me perguntou quando estávamos vencendo por 89 a 60. Minha resposta? Não. A memória do colapso no jogo 2 ainda permanecia. E claro, o Lakers ainda tinha o camisa 24.

Mas como Bryant continuou arremessando tijolos e ficou olhando como Mike Tyson no Japão – lembro quando Buster Douglas bateu na cabeça de Tyson, e depois do choque habitual, chegamos à conclusão gradual que Tyson não era dominante como nós acreditávamos? – comecei a me sentir seguro, mais seguro e mais seguro, ainda mais depois que Ray Allen acertou dois arremessos de três pontos que fez o ginásio desabar.

Nota 7: “PJ sorrindo, Pierce assentindo”

Meu momento favorito do jogo, o que eu sempre vou lembrar. O Lakers pediu tempo depois que Ray Allen acertou o arremesso de três pontos e colocou o Celtics em 101 a 70 (a propósito, não me lembro de um playoff como o de Allen, foi como ver uma pessoa morta sair de um caixão no meio do funeral, como se nada tivesse acontecido. 22 bolas de três nas Finais? O Celtics não teria vencido a série sem ele, e isso é um eufemismo). Todo mundo podia cheirar o troféu neste momento. Ele iria acontecer.

Olhei para o banco do Celtics e notei PJ Brown apenas sentado ali, sorrindo. Ele parecia um pai orgulhoso, acompanhando um filho ou uma filha discursando na festa do Oscar. Ele não poderia ser mais feliz por estar lá. Não foi possível. Ao lado, Pierce enfrentou a multidão atrás do banco do Celtics, observando todo mundo dançar Jumbotron, e concordando alegremente. Você podia vê-lo imerso no momento. Ele não estava fazendo isso para as câmeras. Era um daqueles momentos em que você poderia estudar alguém à distância e ler cada coisa que eles estavam pensando. Ele estava pensando sobre os últimos 10 anos, sobre todas as coisas ruins que aconteceram, sobre todas as vezes em que perdeu a esperança, e agora estava lembrando-se de desfrutar o momento. Você pode vê-lo. Pode ver tudo isso.

Nota 8: Gino!!!!!!!!!

Ele finalmente apareceu, com um pouco mais de três minutos para o final.  Há algum tempo, tivemos o charuto de Red Auerbach. Agora, temos um dançarino com uma barba assustadora, que trabalha sua magia em um episódio de “American Bandstand”, de 30 anos atrás. Assim que a música começou, a multidão entrou em erupção, e Pierce rapidamente levantou de sua cadeira para dançar junto. Isso não teria acontecido há 22 anos: os jogadores trocavam abraços, o ginásio tocava música de órgão, a fumaça do charuto de Red Auerbach subiria, os fãs iriam se preparar para deixar o ginásio e, eventualmente, passar a noite se embebedando em um dos 50 bares próximos ao Garden. Agora? Nós ficamos em nossos lugares, torcendo e aplaudindo, não podemos comemorar após o jogo, pois quase todos os bares foram fechados por questão de segurança, e nós celebramos vitórias dançando junto com dançarinos mortos e músicas extintas de discotecas. As coisas são diferentes agora. Acontece.

Nota 9: “Defense! Defense!”

Esse canto aconteceu depois do jogo, quando estavam entrevistando Doc Rivers no pódio (Nota importante: eu estava errado sobre Terry Francona em 2004, e eu estava errado sobre Doc em 2008. Isso não é uma notícia de tremer a terra, porque erro muitas vezes, mas dessa vez eu estava muito, muito errado. Os caras deram tudo o que tinham nas Finais. Isso teve que ser mencionado). Doc mencionou a defesa como a maior razão para a vitória e os fãs, do nada, começaram a gritar “defense” até o final da entrevista. Foi a maneira perfeita de encerrar a temporada. Tudo começou com a defesa nesta temporada, com a contratação de Garnett, de Tom Thibodeau, de Posey, de Brown, com a afirmação de Pierce como um verdadeiro defensor. Outra vez, a defesa nos salvou nesta temporada. Se há uma lição que aprendemos com o Celtics de 2008, é uma que já sabíamos: a defesa ganha campeonatos.

Nota 10: “Eu tenho que dizer, eu nunca pensei que veria outro título na minha vida”

Foi o que disse meu pai durante a celebração. Ele disse sem um traço de humor, seriedade ou emoção. Menos de 13 meses antes, após nossas esperanças ruírem na loteria e quando parecíamos que estávamos indo para a era Yi Jianlian, nos perguntamos se o basquete profissional foi assassinado em Boston. Meu pai comprou um bilhete único para a temporada 1973/1974 e me levou ao Garden nos quatro anos seguintes, me sentando em seu colo e até dormindo sobre ele no famoso jogo de três prorrogações contra o Phoenix Suns em 1976. Quando me tornei muito grande para sentar no colo dele, ele me comprou um segundo bilhete, mesmo não tendo nenhum dinheiro no momento.  E nós tivemos esses dois bilhetes desde então. Como você paga alguém por uma experiência assim, ao longo da vida? Não dá. Você não pode.

Nos últimos 15 anos, ele desembolsou muito dinheiro para ter uma memória terrível atrás da outra, com exceção de uma corrida improvável nos playoffs de 2002. O que o fez continuar indo a esses jogos sem luz à vista? Ele esperava outro jogo como o famoso duelo entre Bird-Dominique em 1988, quando Larry apareceu tantas vezes que você poderia sentir isso antes de acontecer. Depois dessa obra-prima em um evento esportivo, que foi uma experiência de vida, nós estávamos a caminho de casa quando encontramos uma sorveteria chamada Bailey e pedimos dois sundaes. Acho que não falamos nada durante 20 minutos, apenas comemos sorvete, balançando a cabeça. Dá para colocar algo como isso em palavras? Nós tivemos sorte.

Então, talvez você não pode andar longe do potencial de mais momentos de Bailey, mesmo que a NBA empilhe as probabilidades pesadas contra tal felicidade, por mais de três ou quatro franquias ao mesmo tempo. Após a morte de Reggie, no verão de 1993, o Celtics deixou de ter sorte e de ser inteligente. Isso não impediu o meu pai de renovar os bilhetes a cada ano, com os dedos cruzados, esperando de alguma forma que as coisas mudassem. Em seguida, aconteceu a contratação de Allen, McHale entregou Garnett em uma bandeja de prata, Posey e House vieram, e, de repente, estávamos vivos novamente. Embora o 17º titulo significasse algo diferente para todos, para os condenados à prisão perpétua, como o meu pai e todos os outros que seguiram com os seus bilhetes cada dia mais caros, a noite de terça os atingiu de maneira totalmente diferente. Se eles tivessem desistido, tivessem que assistir o jogo 6 pela televisão, passando o tempo todo pensando “eu poderia ter estado lá”… seria cruel. Em vez disso, eles estavam dentro do TD Garden e se sentindo parte de tudo o que estava acontecendo, porque eles eram.

De qualquer forma, meu pai merecia o título tanto quanto qualquer um. Eu estava em algum lugar entre 100 e 500 vezes mais feliz por ele do que eu era para ninguém. Nos separamos após o jogo, nos abraçamos, e evitamos nos engasgar com o sucesso, mesmo isso não sendo uma coisa ruim. Saí para o The Greatest Bar para comemorar a vitória com vários fãs delirantemente felizes do Celtics, com algumas cervejas comemorativas e uma série de “dá para acreditar?” com quase todas as pessoas que conversei. Ninguém sabia o que dizer. Estávamos todos de acordo que a noite foi grande porque foi em cima do Lakers. Fãs de Boston odeiam os Yankees, os Canadiens, os Lakers. Está no nosso DNA. Soprar o Lakers do Garden no jogo 6 foi a cereja em nosso sundae de chocolate. Se fosse o Jazz ou o Spurs, não seria do mesmo jeito.

A certa altura, alguém me perguntou: “Como você vai escrever sobre… o que? Quero dizer, como você escreve sobre o que aconteceu?”

Eu não sabia, e não me importava. O Celtics foi campeão. O Lakers foi derrotado. A cidade de Boston estava movimentada. Tudo estava bem com o mundo novamente.

E foi aí que eu decidi escrever.

Bill Simmons, de 46 anos, é torcedor do Boston Celtics e jornalista esportivo, que trabalha atualmente no site The Ringer. Simmons escreveu esta crônica no dia 18 de junho de 2008, no site da ESPN, um dia depois do 17º título do Celtics na NBA.