23

março

2017

23

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Vale a pena ser vilão

O título do artigo é forte e tenho certeza que os mais puritanos já estão com duas pedras em suas mãos, preparados para colocarem suas críticas ao final do artigo, mas vamos com calma, que ao longo do texto vocês entenderão onde quero chegar.

Estou escrevendo esse artigo por conta de toda a polêmica geradas por LaVar Ball, ex jogador e pai de três jovens talentos do basquete mundial, entre eles Lonzo Ball, um dos principais atletas do próximo Draft da NBA e que pode ser escolhido pelo Boston Celtics.

Se você esteve viajando para outro planeta nas últimas semanas e não conhece LaVar Ball, segue algumas das célebres frases do falastrão:

– Eu “mataria” Jordan em uma partida um contra um.

– Lonzo Ball já é melhor do que Lebron James e Stephen Curry.

– Lonzo vai superar Magic, ele é o “Magic com arremesso”

– Meus filhos não vão assinar com Nike ou Adidas. Temos nossa própria marca e se alguém quiser fechar um acordo conosco terá que desembolsar algo em torno de UM BILHÃO! (entre outras baboseiras)

Com a aproximação do Draft, cada dia mais LaVar vem tendo espaço em redes de TV para propagar seus devaneios, e muitas pessoas começam a achar que toda essa insanidade pode atrapalhar a carreira de seu filho, até fazê-lo cair nas escolhas do Draft.

É comum em debates sobre o assunto você ouvir frases como:

– Ele está fazendo um marketing negativo

– Ele está colocando pressão em seu filho e não sei se esse vai aguentar

– Lavar está estragando a carreira e o futuro de seus garotos

Trabalhando no mercado publicitário há mais de 15 anos, aprendi que nem todo “marketing negativo” gera perdas, ainda mais no mercado esportivo.

Ser polêmico e atrair para si a fama de vilão tem sido o motivo do sucesso financeiro e profissional de muitos atletas em diversos esportes, e vou citar três exemplos abaixo:


Felipe Melo

Apontado como jogador desleal e rotulado como maior vilão do Brasil na eliminação frente a Holanda na Copa do Mundo de 2010, onde cometeu o primeiro gol contra brasileiro em um Mundial e, em seguida, foi expulso por uma agressão em Arjen Robben.

Acumulando agressões, expulsões e confusões nos clubes por qual passou, Felipe Melo virou sinônimo de jogador indesejado no Brasil e chegou a figurar em listas dos “piores atletas a defender a seleção”, um senso comum até injusto, já que, dentro de campo, Felipe correspondeu por onde passou.

Eis que um dia, o Palmeiras anunciou a contratação do atleta, e uma bomba explodiu nos noticiários. Torcedores de outros times pararam para assistir a entrevista do sempre polêmico atleta, e a frase “vou dar tapa na cara de uruguaio” estampou manchetes por mais de uma semana.

Qualquer programa de TV que conte com a presença do atleta é sucesso de audiência, e suas camisetas rapidamente alcançaram o patamar de mais vendidas pela torcida do Palmeiras.

O seu primeiro gol pela equipe deixou claro o quanto o volante se tornou ídolo instantâneo da torcida palmeirense, e o retorno financeiro com marketing do atleta e do Palmeiras só cresce.


Luis Suárez

Luizito sempre foi um atleta controverso e com atitudes dignas de vilão.

Durante a Copa do Mundo de 2010, o uruguaio, ainda com 23 anos de idade, já era destaque na Holanda, jogando pelo Ajax, mas ainda estava longe de ter o destaque mundial que possui hoje.

Tudo mudou em uma partida contra Gana, válida pelas quartas de final da Copa, quando Luizito salvou o Uruguai nos acréscimos ao “defender” um chute com as mãos de forma proposital, o que causou sua expulsão, a indignação dos adversários e segundos depois a eliminação de Gana, que desperdiçou o pênalti.

Em um torneio com forte apelo pelo Fair Play, Suárez rapidamente foi julgado como um vilão, mas curiosamente em paralelo a isso, se tornou herói de muitos entusiastas do futebol e seu destaque mundial cresceu.

A partir desse ponto, sua carreira decolou de vez, muito pela sua capacidade técnica, é claro, mas é inegável que o episódio o colocou mais no radar e na mídia do que antes. Com o tempo, Suárez foi acumulando mais e mais casos de polêmica, como o caso de racismo contra o lateral francês Patrice Evra e a mordida em Branislav Ivanović.

Veio a Copa do Mundo de 2014 e uma nova mordida, agora no italiano Giorgio Chiellini, rendeu ao atacante uma suspensão de quatro meses e a rescisão de contrato com a Adidas. Prejuízo financeiro? Pelo contrário.

Dias depois, Luizito assinou com a Negresco, que fez uma campanha de marketing fornecendo ao uruguaio “algo melhor para ele morder” e, em seguida, após a poeira baixar, a Adidas voltou atrás e manteve seu contrato com o atleta, contrato esse que sofreria um reajuste financeiro gigantesco um período depois.


Conor McGregor

Para finalizar, vamos com o exemplo de Conor McGregor, que é o caso que mais se assemelha a LaVar Ball.

“Notorious”, como gosta de ser chamado, fez sua fama de vilão de forma diferente aos outros dois citados. O irlandês criou um papel quase que teatral para si mesmo e encarna esse personagem em toda entrevista para criar polêmicas, atrair mídia e criar a ira de seus adversários.

Tais atitudes criaram uma polarização na base de fãs do UFC e não existe quem seja indiferente ao atleta, Conor é um cara que você ama ou odeia, e essa base de fãs que o odeiam e que é muito grande, não o prejudica financeiramente, pelo contrário, só gera mais lucro para o atleta.

Os “haters” são responsáveis por grande parte da venda de pay-per-view de suas lutas, pois querem a todo custo presenciar a derrocada do falastrão e se deliciarem com sua tragédia.

Lutadores mais reservados e “boa praça” não alcançam nem de perto os lucros de McGregor, basta ver José Aldo, que foi campeão invicto da divisão por anos e nunca recebeu contratos minimamente comparáveis com o Irlandês.


Conclusão

LaVar sabe que a polarização de opiniões, se bem-feita, pode aumentar especialmente os ganhos com publicidade, e está colocando seu plano em prática de maneira quase que genial até o momento.

O “paizão” está criando um “marketing negativo” para si mesmo e atraindo indiretamente muita atenção para seus filhos, que não se envolvem nas polêmicas e se dedicam ao que sabem, que é jogar basquete.

Lonzo é um dos melhores jogadores da NCAA e teria seu destaque nos noticiários de qualquer forma, mas e os dois irmãos (Lamelo e Liangelo)? Qual a probabilidade de você já estar de olho nesses garotos a esse momento se seu pai não estivesse tendo todo esse espaço na mídia?

Quantas matérias você lê sobre Lonzo e quantas você lê sobre Fultz, Jackson e companhia?

Colocar um produto em evidencia é o segredo para o sucesso financeiro, e não tenha nenhuma dúvida que a esse momento as marcas esportivas estão muito mais dispostas a liberar uma alta verba de patrocínio a Lonzo do que a qualquer outro garoto desse Draft.

Muito se fala sobre a pressão que LaVar pode estar colocando sobre Lonzo. Minha opinião sobre isso é que todo atleta top-3 de Draft já tem a pressão sobre seus ombros, independente do que seu pai diz ou não para a imprensa, então não vejo como tais declarações podem aumentar essa pressão e prejudicá-lo em algo. Aliás, eu acho que todos os garotos da família sabem que o que seu pai está fazendo é marketing. Esse assunto deve ser discutido constantemente em casa, de forma que os garotos pouco devem se importar com o que é dito, sabendo que tudo não passa de uma estratégia de divulgação.

Por fim, para aqueles que acham que a posição no Draft de Lonzo pode sofrer uma queda por conta do seu pai, esqueça isso. Sam Amick, do site USA Today Sports já fez uma pesquisa com diversos GMs da liga e a resposta que teve foi quase que unânime de que os gerentes não se importam com as declarações da família e de que não acham inteligente passar a escolha de um grande talento por conta de coisas tão pequenas como essa.

Então por fim, reitero o que disse no título:

– Ser vilão vale a pena, pelo menos no mundo do marketing!