17

abril

2015

29

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Celtics, playoffs e o primeiro ‘título’ da reconstrução

Em 1978, logo após vencer a Itália na decisão do terceiro lugar da Copa do Mundo, o técnico brasileiro Cláudio Coutinho declarou que sua seleção era a ‘campeã moral’ do Mundial. Explica-se: por causa de um regulamento pífio e uma suspeita de entrega de resultado no jogo entre Argentina e Peru, o Brasil não disputou o título daquela Copa, mas voltou para casa de cabeça erguida. Quase 40 anos depois, mas em outro esporte e outra situação, podemos empregar a frase do lendário treinador para falar sobre a temporada 2014/2015 do Boston Celtics. Afinal de contas, o Alviverde não levantou nenhum troféu, longe disso, mas teve motivos para deixar a sua fanática torcida orgulhosa.

Ok, temos que lembrar que a franquia de Massachusetts terminou com uma campanha inferior a 50% e ficou apenas na sétima colocação da Conferência Leste, muito pouco para quem tem 17 títulos da NBA e uma história única no basquete mundial, mas as circunstâncias fazem com que o Celtics celebre muito essa campanha. Afinal de contas, é a segunda temporada sem os ídolos Paul Pierce e Kevin Garnett, sem falar nas saídas de Rajon Rondo e Jeff Green durante a competição deste ano, mas os celtas souberam se reerguer, jogaram o fino da bola nas últimas partidas da temporada regular e sacramentaram o retorno aos playoffs. Mesmo sem astros. Mesmo com um time jovem. Mesmo com uma comissão técnica inexperiente. Mesmo com trezentas trocas e mudanças no elenco. Peso da camisa? Pode ser. Das cadeiras do TD Garden? Sem dúvida. Porém, acima de tudo, pesou a competência. Dentro e fora de quadra.

O primeiro fator vem do banco de reservas: em sua segunda temporada na NBA, depois de uma passagem acima das expectativas no Butler Bulldogs, da NCAA, o treinador Brad Stevens conseguiu tirar leite de pedra em 2014/2015. Criticado por sua falta de experiência (por mim, inclusive) e tendo que lidar com muitas mudanças no elenco, já que a franquia ainda atravessa um árduo processo de reconstrução, o comandante celta conseguiu manter uma equipe competitiva, muito distante da que esteve em quadra na última edição da liga, quando nomes como Jerryd Bayless e Chris Johnson eram figuras constantes na rotação. Com um plantel fixo, logo depois do All-Star Game, Stevens conduziu o Celtics aos playoffs, com um desempenho superior apenas ao do Cleveland Cavaliers, oponente no primeiro round da pós-temporada.

Claro, Brad Stevens não fez tudo sozinho. Na equipe titular, dá para destacar a raça e o alto potencial defensivo do calouro Marcus Smart, efeito positivo do ‘tank’ de 2013/2014, o sangue-frio de Avery Bradley nos momentos decisivos, a habilidade e polivalência de Evan Turner, a experiência de Brandon Bass e a valentia de Tyler Zeller. Isso sem falar nas peças da rotação, como Jae Crowder, Jonas Jerebko, Kelly Olynyk, Luigi Datome e, claro, Isaiah Thomas, que veio do Phoenix Suns para ser o sexto homem e grande destaque do Celtics nesta arrancada espetacular. Um elenco que, se não é dos mais fortes, compensou suas limitações com muita disposição, típico dos melhores dias do Boston Celtics.

É verdade que as chances de título já nesta temporada são remotíssimas. Afinal de contas, além de todos os problemas, os playoffs começam contra um favorito Cleveland Cavaliers, comandado pelo astro LeBron James. Tudo indica que não será desta vez. Entretanto, o Celtics terá um grupo e comissão técnica com experiência de playoffs em 2016, escolhas de Draft para recrutar e mesmo negociar por outros atletas, além de um bom espaço na folha salarial, que deve ser aumentada nas próximas temporadas, para atrair bons jogadores no mercado de agentes livres. Mesmo com as limitações, o presente é valente e o futuro é promissor. Ir aos playoffs, portanto, merece ser comemorado como um ‘campeonato moral’ pelo Boston Celtics. Que venham a pós-temporada deste ano e as próximas.