O Celtics precisa olhar para Derrick White com mais atenção
Derrick White não foi o principal motivo da eliminação do Boston Celtics, e reduzir a queda nos playoffs a um único jogador seria uma leitura injusta. Ainda assim, o desempenho do armador merece uma análise mais profunda, porque ele ocupa um espaço sensível no elenco: não é uma estrela como Jayson Tatum ou Jaylen Brown, mas também já não pode ser tratado apenas como um coadjuvante de luxo.

Na temporada regular de 2025-26, White teve médias de 16,5 pontos, 4,4 rebotes e 5,4 assistências. O número bruto mostra que ele continuou produtivo, especialmente em criação secundária e organização do ataque. O problema aparece quando se olha para a eficiência: seu aproveitamento geral ficou em 39,4%, um dado que ajuda a explicar por que a discussão sobre sua oscilação ganhou força depois da queda para o Philadelphia 76ers.
White ainda é um jogador de alto valor dentro da NBA moderna. Defende múltiplas posições, toma decisões rápidas, não precisa monopolizar a bola e entende muito bem os espaços ao lado de estrelas. O ponto central, portanto, não é perguntar se ele serve para o Celtics. A pergunta mais relevante é outra: Boston ainda pode depender dele como uma terceira força confiável em uma série de playoff pesada?
A queda nos playoffs mudou o tom da conversa

O CelticsBlog, em uma análise sobre a eliminação, apontou a regressão ofensiva de White como uma das razões da queda. O texto destacou que sua queda no aproveitamento de três pontos e a dificuldade para pontuar com consistência afetaram o espaçamento de Boston, justamente em uma série na qual o time precisava punir a defesa dos Sixers com mais precisão.
Esse tipo de oscilação pesa mais em White do que em outros jogadores porque grande parte do valor ofensivo dele vem da combinação entre arremesso, leitura rápida e ataques pontuais ao aro. Quando a bola de três não cai, ele precisa compensar com infiltrações, passes extras, cortes ou defesa de elite. Se duas ou três dessas camadas caem ao mesmo tempo, seu impacto deixa de ser invisivelmente positivo e passa a aparecer como ausência.
A série contra Philadelphia também criou um contraste desconfortável. Enquanto Tyrese Maxey elevou seu nível e VJ Edgecombe teve impacto em momentos importantes, White pareceu perder confiança ofensiva em trechos decisivos. Não significa que ele tenha “acabado” ou que esteja em queda irreversível, mas o playoff costuma ser cruel com jogadores que dependem muito da eficiência em baixo volume.
O contrato aumenta a responsabilidade
O lado financeiro torna a conversa ainda mais importante. White assinou uma extensão de quatro anos e US$ 118 milhões com o Celtics, totalmente garantida, segundo o Spotrac. O contrato reflete o quanto Boston valoriza sua estabilidade, mas também coloca o jogador em uma faixa salarial na qual a produção precisa ser mais constante em jogos grandes.
White tem salários projetados de US$ 30,3 milhões em 2026-27, US$ 32,5 milhões em 2027-28 e US$ 34,8 milhões em 2028-29. Para um elenco que já concentra dinheiro pesado em Tatum e Brown, esse tipo de contrato exige que White seja mais do que um bom encaixe.
Isso não torna seu contrato ruim automaticamente. White é um jogador raro pelo equilíbrio entre defesa, inteligência e capacidade de atuar com ou sem a bola. O risco é outro: em um elenco caro, qualquer queda de eficiência de um titular bem pago limita a margem de erro da diretoria.
O problema é idade, função ou contexto?
White completará 32 anos antes da temporada 2026-27. Isso não coloca o jogador em declínio físico automático, mas obriga o Celtics a ser realista. Guards que dependem de leitura e defesa podem envelhecer bem, especialmente quando não vivem só da explosão. Ao mesmo tempo, a intensidade defensiva cobrada dele durante anos tem custo.

A temporada também precisa ser lida dentro do contexto coletivo. Boston passou por mudanças de rotação, lidou com diferentes níveis de saúde de seus principais jogadores e, nos playoffs, viu sua profundidade se transformar em dúvida. White não oscilou em um ambiente estável; ele oscilou dentro de um time que também perdeu clareza ofensiva.
Ainda assim, esse argumento não elimina a responsabilidade individual. Um jogador com o peso de White precisa encontrar formas de impactar quando o arremesso não aparece. A defesa continua sendo seu piso, mas o Celtics precisa que seu teto ofensivo apareça com mais frequência.
O que Boston deve fazer com essa informação?
A resposta mais equilibrada não passa por colocar White imediatamente no mercado, nem por ignorar o alerta. O Celtics precisa tratá-lo como peça importante, mas também precisa montar o elenco de forma que ele não seja obrigado a carregar uma função ofensiva acima do ideal.
White funciona melhor quando é o conector que pune vantagens criadas por Tatum e Brown. Quando ele precisa virar criador principal por longos trechos, sua margem diminui. A construção do elenco para 2026-27 deve levar isso em conta: mais criação secundária, mais pressão no aro e mais jogadores capazes de gerar pontos fáceis podem recolocar White em uma função mais natural.
Leitura do Celtics Brasil
Derrick White ainda é um dos jogadores que melhor representa o basquete que o Celtics quer jogar: inteligente, coletivo, defensivamente confiável e pouco dependente de volume. O problema é que a versão ideal de White precisa aparecer nos playoffs, não apenas em longos trechos da temporada regular.
A preocupação existe, mas deve ser medida. Não é caso de ruptura, e sim de recalibragem. Boston precisa entender se White continuará sendo a terceira peça mais confiável de um elenco candidato ou se, daqui para frente, seu papel ideal será um pouco menor ofensivamente. Em um time caro, cada contrato precisa entregar valor real em maio. White entrega muito, mas a série contra Philadelphia mostrou que o Celtics não pode mais tratar sua estabilidade como garantida.
